Ventos que sustentam
Equipe e governança
Olhar no horizonte
O Beja por Cristiane Sultani
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Sempre adiante
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Eu estou sempre à frente do teu olhar,
Não me alcançam, mas tentam me seguir;
Sou linha onde o céu encontra o mar,
Sou promessa que insiste em existir.
Não me tocam, mas sentem meu chamar,
Sou distância que convida a prosseguir;
Guio passos que aprendem a confiar
No que ainda está por se construir.
Já vi rios correrem sem saber
Se o mar seria abrigo ou vastidão;
Vi sementes romperem para crescer.
Sou limite, mas também direção.
Sou aquilo que ensina a permanecer
Olhando além da própria condição.
Sou silêncio antes do novo passo,
Sou o risco que amplia a visão;
Sou espaço entre o medo e o traço
Que transforma intenção em ação.
Não sou ponto final nem despedida,
Sou convite a seguir mais além;
Sou o traço que projeta a vida
Para um tempo que ainda vem.
Quem eu sou?
A filantropia, em seu significado, é o “profundo amor à humanidade”, o “desprendimento, generosidade para com o outro”, como apresenta o dicionário. É claro que o conceito vai muito além do que só relacionar essa conexão das pessoas. É preciso atualizá-lo e contemplar a natureza e o planeta. E é esse capital do afeto que motivou Cristiane Sultani a fundar o Instituto Beja, em 2021, e, desde então, a instituição tem buscado traduzir essa filantropia em ação sistêmica, corajosa e, acima de tudo, disposta ao risco. “Nascemos para discutir e pensar em conjunto em novas formas de agir e investir, mediante escuta”, aponta Cristiane. No dia a dia, chamamos isso de “oxigenação”.
Em um cenário de intensa “policrise”, ou seja, no qual os desafios climáticos, sociais e democráticos se entrelaçam, a aposta do Instituto Beja é atuar com o “policapital”: mobilizando não apenas recursos financeiros, mas repertórios, redes e a capacidade de influenciar transformações.
A organização se torna, assim, um laboratório vivo em que o capital filantrópico familiar é livre para experimentar, errar e corrigir rotas com agilidade. “Nossa missão é fortalecer a Infraestrutura da filantropia no Brasil, garantindo que ela seja mais colaborativa, tecnológica e profundamente comprometida com a Justiça Racial e a Democracia”, cita a fundadora.
“O grande diferencial do Beja é experimentar e estar aberto ao erro. E aprender com esses erros de forma rápida. E, também, destacaria a construção conjunta e a escuta do campo. Não é o que a gente pensa, mas o que a gente ouve.”
Foto: Jonatha Bongestab
Confira, na entrevista com Cristiane, a trajetória de cinco anos do Instituto Beja marcada pelo aprendizado constante.
O Instituto Beja, nesses cinco anos de história, tem buscado uma filantropia inovadora em sua forma de atuar. Sobre o que estamos falando quando citamos o propósito catalítico da organização?
Cristiane Sultani - Temos ainda, no Brasil, uma filantropia considerada pequena se comparada à internacional. E pequena não significa, simplesmente, só em relação ao valor dos recursos doados, mas também na sua potência. Obviamente têm exceções à regra, mas, na média, o resultado ainda é aquém do que se espera da potencialidade da filantropia no Brasil, seja com recursos de atuais filantropos, seja com ingresso de novos.
Quando a gente diz, então, que o Beja tem um propósito catalítico, se refere a como esse recurso deve ser usado de forma sistêmica e eficiente a ponto de que possa multiplicar os seus efeitos, ou seja, atrair novos capitais ou novos recursos de diferentes naturezas para o campo.

Em diferentes ocasiões, você cita que, diante da policrise que a humanidade vivencia atualmente, é necessário usar o policapital. O que isso significa?
Cristiane Sultani - A policrise é o que estamos vivendo atualmente: crise climática, guerras geopolíticas, escassez de recursos, falta de capacidade do planeta de absorver a quantidade de gente e do uso atual das coisas. Já o policapital é exatamente o quão catalítico pode ser não só o uso do recurso financeiro, mas dos outros capitais que todos nós temos: seja o capital empresarial, conhecimentos profissionais, network, capacidade de se relacionar, influência institucional etc. Às vezes, o mais importante para as organizações não é o recurso financeiro do Beja, mas o network, o contato, a abertura de canais que é feita. É nesse lugar que a gente coloca policrise e policapital.
Você aponta em suas falas que “o capital filantrópico é um capital de risco. O [Instituto] Beja toma grandes riscos em prol da aprendizagem. Pois, sem experimentação, não há inovação.” Por que você diz que esse capital é de risco?
Cristiane Sultani - Tem uma discussão na filantropia sobre controle e falta de confiança. Então, independente do esforço e do impacto que seja causado pelas organizações da sociedade civil, existe o poder da filantropia sobre o uso do capital. Se as relações de confiança não estão estabelecidas, cada vez mais você quer controlar o uso do dinheiro. Por que eu falo que ele é de risco? Porque a livre doação pressupõe a transferência também do controle. Obviamente trabalhamos com metodologias, ferramentas e critérios que podem minimizar o risco, mas ele existe.
O governo não pode arriscar capital porque precisa prestar contas do dinheiro dos impostos dos seus contribuintes; as empresas, na maioria das vezes, têm sócios; as companhias abertas prestam contas para os seus investidores. Então, para mim, o verdadeiro capital que pode tomar risco a serviço da sociedade para experimentar e inovar, é o capital da filantropia familiar. Por isso, insisto que deve ter eficiência, mas com mais confiança no que está sendo feito e com mais apetite de inovação.
E como esse capital de risco tem marcado a caminhada do Instituto Beja desde a sua criação?
Cristiane Sultani - Por exemplo, entendemos que a colaboração traz eficiência ao processo, então, a gente cria laboratórios em que se pode experimentar essa colaboração com outros parceiros, além de fomentar um ambiente não só de experimentação, mas também de adoção de novas práticas, buscando a inovação pelo mundo. Às vezes, a inovação não está em trazer uma ideia nova, mas, sim, em fazer diferente do que já está sendo realizado.
Assim, a partir desse cenário da policrise, da questão tecnológica e de todas as oportunidades atuais existentes, estamos sempre colocando capital onde, efetivamente, possamos experimentar o que está sendo discutido. E a gente acha que esse capital é de risco porque ele pode errar e corrigir rápido, o que é importante.
Com o Beja, por exemplo, depois de um ano e meio, vimos que a missão não estava sendo eficiente. Então, a mudamos completamente para atuar na Infraestrutura da filantropia no Brasil. Essa mudança rápida traz a perspectiva da disponibilidade desse capital de risco para experimentação.

Como se deu a escolha dos Eixos Programáticos: Infraestrutura da filantropia, Democracia e Justiça Racial? Como esses Eixos se relacionam com a missão de promover o impacto positivo no campo da filantropia e fomentar a inovação, colaboração, eficácia e engajamento da sociedade para resolução de problemas sistêmicos?
Cristiane Sultani - A nossa missão é a Infraestrutura da filantropia, pois entendemos que a filantropia no Brasil precisa ampliar a colaboração e o investimento em tecnologia e em advocacy para políticas públicas. Tem muito sendo feito, mas é preciso mais. Então, a gente trabalha nesse lugar da mudança cultural, trazendo exemplos, fazendo experimentação, usando o capital para risco, como falei antes, para fomentar novas ideias. Apesar de estarmos vivenciando a nova missão há pouco tempo, temos tido reconhecimento do setor nesse sentido e atraído novos parceiros. Isso tem feito bastante sentido.
Já o Eixo de Justiça Racial é fundamental diante do gap que existe no Brasil. Quando temos um país em que a maioria da sua população é preta e parda, porém todos os rankings apontam que as posições no mercado não estão sendo ocupadas por essa população, vemos a necessidade de atuar na questão racial. O economista Eduardo Giannetti sempre destaca que não dá para mudar um país quando uma criança já nasce com outra dimensão de oportunidade, ou seja, se não atuarmos nesse tema, nunca vamos acabar com as desigualdades. Então, para mim, isso é muito profundo. Não podemos nos acostumar com as desigualdades. É uma questão de dignidade.
No Eixo da Democracia, temos ainda pouquíssimos filantropos atuando nesse sentido. A nossa perspectiva é trabalhar para criar e aumentar a possibilidade do espaço do exercício do direito de cidadania, para que o cidadão entenda a importância da democracia, e não menosprezar isso por uma questão de polarização, de preferência de candidatura.
Hoje, a gente entende que, para ter uma Infraestrutura eficiente e coerente [da filantropia], precisamos trabalhar nesses outros dois Eixos: Democracia e Justiça Racial.
Um dos aspectos citados no manifesto do Instituto Beja é a missão de oxigenar a filantropia, pois, conforme o mundo muda, a filantropia precisa inovar. O que é possível citar em termos de avanços conquistados pelo Instituto desde sua criação em 2021?
Cristiane Sultani - Temos algumas iniciativas interessantes para compartilhar nesse sentido. Conseguimos, por exemplo, estabelecer uma aliança para atuar de forma estruturada na melhoria da infraestrutura jurídica e tributária da filantropia.
No primeiro momento, era entendido que um melhor ambiente tributário atrairia mais capital social privado. O movimento foi iniciado pelo Beja e imediatamente adotado por outras instituições, para fazer um advocacy colaborativo, trabalhando na promoção das mudanças, a fim de isentar o imposto sobre doação e outras questões, como em relação aos fundos patrimoniais.
Vimos, nessa atuação, uma mudança de paradigma. Hoje, a Aliança existe, foi vencedora na questão do imposto sobre doação e ganhou corpo e confiança de muitas instituições.
Num curto espaço de tempo, essa liderança foi reconhecida e hoje é tudo o que a gente sonha, pois é uma coliderança, na qual várias instituições atuam de fato em parceria, no sentido de confiança e de entendimento coletivo.
Outro exemplo de iniciativa mais arrojada é a parceria global e a criação do Centro para Mudanças Exponenciais [CMe], que é o hub brasileiro de uma rede global de apoio para Orquestradores de Sistemas* . Entendemos que vários governos estavam investindo em novas tecnologias e existiam modelos na Índia, na China e nos Estados Unidos, mas, no Brasil, era preciso mais investimento. Não sabíamos por onde começar, porque não é uma expertise nossa, mas usamos o capital para tomar esse risco a partir de um modelo que já estava sendo utilizado na Índia, um centro que tinha nascido ali e estava buscando parceiros globais. Então, o Beja entra como parceiro global de filantropias grandes – Nilekani Philanthropies (Índia), New Profit (EUA), Skoll Foundation (Global), Waverley Street Foundation (Global) e Yellowwoods Foundation (África do Sul) – a partir do Sul Global, para cofundar o Centre for Exponential Change [C4EC], essa rede global que hoje conta com hubs na África do Sul, Ruanda e Índia, além do Brasil. Outro grande ponto-chave dessa parceria é o estabelecimento do Sul Global como prioridade.
Portanto, para mim, essa parceria é uma grande oxigenação. Na Índia, a filantropia e o investimento social privado tiveram papel importante na construção da infraestrutura de tecnologia para que o governo pudesse criar uma identidade digital e um cadastro único dos seus 1,4 bilhões de habitantes. São histórias como essas que nos inspiram a pensar o que é possível aqui. Então, estamos com o hub do C4EC no Brasil, o CMe (Centro para Mudanças Exponenciais), criado e tomando corpo. Já temos seis parceiros aprovados pela rede global para participar da jornada para mudanças exponenciais, que provocará uma verdadeira mudança de mindsets, a fim de alcançarmos soluções com mais escala, impacto e que resolvam mais rapidamente as questões das desigualdades de maneira mais sustentável.
“Acredito que um dos nossos diferenciais é o fato de que temos conseguido abrir muitos canais internacionais. Fico muito feliz quando ouço de outras filantropias depoimentos como: ‘A gente aprovou esse parceiro, pois vimos que ele estava na carteira de vocês’. Existe, então, um reconhecimento de que estamos fazendo um trabalho diferenciado.”
Outra iniciativa que acredito ser um diferencial é o Filantropando, um movimento que nasceu para reunir os filantropos e as organizações da sociedade civil, a fim de promover a escuta conjunta e explorar caminhos inovadores para o campo. Foi inclusive, a partir da primeira edição do Filantropando, que criamos o movimento de advocacy para a legislação tributária hoje conhecido como Aliança para o Fortalecimento da Sociedade Civil. Vejo, então, que o Filantropando tem o potencial de reunir todos os envolvidos do campo: doadores, parceiros, consultores etc., e refletir sobre o que tem de novo, o que estão fazendo de diferente, como podem contribuir e o que está sendo feito e pode ser melhorado.
A respeito de 2025, o que podemos destacar como os principais marcos e resultados?
Cristiane Sultani - No decorrer do ano, conseguimos desenhar melhor a atuação do Centro para Mudanças Exponenciais. Foi muito bom ouvir, dos três primeiros parceiros que participaram da jornada, que há um efeito multiplicador das ações, não só para a missão daquela instituição, mas sim na forma de pensar e de agir no campo, de como agora conseguem, em um congresso, uma conferência ou em qualquer ambiente coletivo, fazer essas ideias serem discutidas.
Outro ponto bem importante foi a maturidade da relação com o Instituto Toriba na curadoria do Filantropando a partir do imaginário e das possibilidades em conversas que parecem óbvias – mas acabam não acontecendo – e, também, a oportunidade da criação desse espaço de segurança para as conversas serem mantidas. Foi muito interessante poder discutir como podemos transformar o nosso próprio território, o nosso próprio mapa, a nossa própria forma de pensar e de agir.
A chegada de temas, como a nova longevidade, com a criação do Laboratório focado nesse assunto foi outro ponto positivo. A pirâmide do país inverteu e o próprio governo não prestou muita atenção. São tantas políticas públicas que precisam ser criadas ou revisitadas a partir da convivência intergeracional entre crianças, adultos e idosos. Há diversas perguntas ainda a serem respondidas: Que idoso é esse? A partir de qual idade?
Acho que tivemos muitas conquistas esse ano.
Quanto às mudanças de rota? O que é possível citar em termos de ajustes de estratégias? O que foi experimentado e ajustado em 2025 pela organização?
Cristiane Sultani - Tínhamos ainda um reflexo muito pulverizado do nosso portfólio diante da velocidade da mudança da missão do Beja. Então, em 2025, fizemos uma reflexão interna importante sobre o que seriam, efetivamente, os Eixos estratégicos e o que eles representam, pois é, a partir do nosso portfólio, que conseguimos comunicar o que realmente fazemos. Acredito que esse foi um intenso exercício do ano. E, a partir daí, tivemos mudanças de estrutura, de equipe etc. Além disso, tivemos um grande trabalho de escuta do campo sobre qual é o diferencial do Beja para esses vários atores.
A respeito das temáticas do Filantropando, o evento abrigou sete rodas de conversas organizadas em quatro ondas, conectando justiça climática, território, comunicação, imaginação e financiamento transformador. Por que chamaram de Diálogos Improváveis?
Cristiane Sultani - A COP é um evento muito institucional, a partir de um padrão europeu e americano. E não é que seja impossível, mas é improvável a realização de alguns diálogos, como a respeito da religiosidade. Sabemos que, sendo a COP no Brasil, os ribeirinhos e os indígenas, por exemplo, tiveram a oportunidade de estar na Conferência, pelo exercício da democracia, mas essas conversas também não seriam debatidas em recintos maiores, com a reciprocidade que ocorreu no Filantropando. Essa oportunidade de trazer temáticas que não estavam na agenda oficial do encontro atraiu parceiros que, naturalmente, não estariam interessados em ouvir. Foi muito efetivo.
Houve momentos muito marcantes. O Daniel Calarco, presidente do Observatório Internacional da Juventude, por exemplo, lembrou que, antes da Conferência, muitas pessoas falavam que o Brasil não teria infraestrutura para receber uma COP, questionando o porquê de ser em Belém etc. E aí, ele perguntou: “Mas será mesmo que uma cidade que recebe o maior evento religioso do país, que é o Círio de Nazaré, com mais de 2 milhões de pessoas todos os anos, não tem infraestrutura ou será que esse é o pensamento europeu que está esperando que a América do Sul receba como a França?”. Essa é a disparidade daquelas pessoas que não estão disponíveis para estar de acordo com o que o país oferece.
No Filantropando, tivemos a felicidade de promover não só conversas, mas também trazer a cultura local para dentro do barco, contando com a presença de bandas para compartilhar conosco a experiência do território, assim como as comidas produzidas pelas pessoas do território. Muitos estrangeiros participaram também das conversas. O CEO da Black Jaguar Foundation, nosso parceiro, por exemplo, é um holandês, e ele destacou: “Não vi isso acontecer em nenhum outro lugar da COP. Estou impressionado. Não esperava ter essa qualidade de conversa e essa oportunidade de escuta e de conhecimento.” Então, acho que eu traduziria a participação do Beja extraCOP como um golaço de grandeza de enriquecimento e de conhecimento para todos nós participantes.

Para fechar a conversa olhando para o campo da filantropia familiar, que caminhos você apontaria, então, para a nova geração de filantropos que está chegando?
Cristiane Sultani - Existe muita expectativa sobre o que essas novas gerações vão fazer e como elas vão usar o seu capital. Ainda não sabemos, mas estamos trabalhando para inspirá-las. Acho que o movimento do Beja já tende a ser inspiracional. E a gente quer que as pessoas venham experimentar conosco. Fica aqui o convite.
O Instituto Beja, nesses cinco anos de história, tem buscado uma filantropia inovadora em sua forma de atuar. Sobre o que estamos falando quando citamos o propósito catalítico da organização?
Cristiane Sultani - Temos ainda, no Brasil, uma filantropia considerada pequena se comparada à internacional. E pequena não significa, simplesmente, só em relação ao valor dos recursos doados, mas também na sua potência. Obviamente têm exceções à regra, mas, na média, o resultado ainda é aquém do que se espera da potencialidade da filantropia no Brasil, seja com recursos de atuais filantropos, seja com ingresso de novos.
Quando a gente diz, então, que o Beja tem um propósito catalítico, se refere a como esse recurso deve ser usado de forma sistêmica e eficiente a ponto de que possa multiplicar os seus efeitos, ou seja, atrair novos capitais ou novos recursos de diferentes naturezas para o campo.

Em diferentes ocasiões, você cita que, diante da policrise que a humanidade vivencia atualmente, é necessário usar o policapital. O que isso significa?
Cristiane Sultani - A policrise é o que estamos vivendo atualmente: crise climática, guerras geopolíticas, escassez de recursos, falta de capacidade do planeta de absorver a quantidade de gente e do uso atual das coisas. Já o policapital é exatamente o quão catalítico pode ser não só o uso do recurso financeiro, mas dos outros capitais que todos nós temos: seja o capital empresarial, conhecimentos profissionais, network, capacidade de se relacionar, influência institucional etc. Às vezes, o mais importante para as organizações não é o recurso financeiro do Beja, mas o network, o contato, a abertura de canais que é feita. É nesse lugar que a gente coloca policrise e policapital.
Você aponta em suas falas que “o capital filantrópico é um capital de risco. O [Instituto] Beja toma grandes riscos em prol da aprendizagem. Pois, sem experimentação, não há inovação.” Por que você diz que esse capital é de risco?
Cristiane Sultani - Tem uma discussão na filantropia sobre controle e falta de confiança. Então, independente do esforço e do impacto que seja causado pelas organizações da sociedade civil, existe o poder da filantropia sobre o uso do capital. Se as relações de confiança não estão estabelecidas, cada vez mais você quer controlar o uso do dinheiro. Por que eu falo que ele é de risco? Porque a livre doação pressupõe a transferência também do controle. Obviamente trabalhamos com metodologias, ferramentas e critérios que podem minimizar o risco, mas ele existe.
O governo não pode arriscar capital porque precisa prestar contas do dinheiro dos impostos dos seus contribuintes; as empresas, na maioria das vezes, têm sócios; as companhias abertas prestam contas para os seus investidores. Então, para mim, o verdadeiro capital que pode tomar risco a serviço da sociedade para experimentar e inovar, é o capital da filantropia familiar. Por isso, insisto que deve ter eficiência, mas com mais confiança no que está sendo feito e com mais apetite de inovação.
E como esse capital de risco tem marcado a caminhada do Instituto Beja desde a sua criação?
Cristiane Sultani - Por exemplo, entendemos que a colaboração traz eficiência ao processo, então, a gente cria laboratórios em que se pode experimentar essa colaboração com outros parceiros, além de fomentar um ambiente não só de experimentação, mas também de adoção de novas práticas, buscando a inovação pelo mundo. Às vezes, a inovação não está em trazer uma ideia nova, mas, sim, em fazer diferente do que já está sendo realizado.
Assim, a partir desse cenário da policrise, da questão tecnológica e de todas as oportunidades atuais existentes, estamos sempre colocando capital onde, efetivamente, possamos experimentar o que está sendo discutido. E a gente acha que esse capital é de risco porque ele pode errar e corrigir rápido, o que é importante.
Com o Beja, por exemplo, depois de um ano e meio, vimos que a missão não estava sendo eficiente. Então, a mudamos completamente para atuar na Infraestrutura da filantropia no Brasil. Essa mudança rápida traz a perspectiva da disponibilidade desse capital de risco para experimentação.

Como se deu a escolha dos Eixos Programáticos: Infraestrutura da filantropia, Democracia e Justiça Racial? Como esses Eixos se relacionam com a missão de promover o impacto positivo no campo da filantropia e fomentar a inovação, colaboração, eficácia e engajamento da sociedade para resolução de problemas sistêmicos?
Cristiane Sultani - A nossa missão é a Infraestrutura da filantropia, pois entendemos que a filantropia no Brasil precisa ampliar a colaboração e o investimento em tecnologia e em advocacy para políticas públicas. Tem muito sendo feito, mas é preciso mais. Então, a gente trabalha nesse lugar da mudança cultural, trazendo exemplos, fazendo experimentação, usando o capital para risco, como falei antes, para fomentar novas ideias. Apesar de estarmos vivenciando a nova missão há pouco tempo, temos tido reconhecimento do setor nesse sentido e atraído novos parceiros. Isso tem feito bastante sentido.
Já o Eixo de Justiça Racial é fundamental diante do gap que existe no Brasil. Quando temos um país em que a maioria da sua população é preta e parda, porém todos os rankings apontam que as posições no mercado não estão sendo ocupadas por essa população, vemos a necessidade de atuar na questão racial. O economista Eduardo Giannetti sempre destaca que não dá para mudar um país quando uma criança já nasce com outra dimensão de oportunidade, ou seja, se não atuarmos nesse tema, nunca vamos acabar com as desigualdades. Então, para mim, isso é muito profundo. Não podemos nos acostumar com as desigualdades. É uma questão de dignidade.
No Eixo da Democracia, temos ainda pouquíssimos filantropos atuando nesse sentido. A nossa perspectiva é trabalhar para criar e aumentar a possibilidade do espaço do exercício do direito de cidadania, para que o cidadão entenda a importância da democracia, e não menosprezar isso por uma questão de polarização, de preferência de candidatura.
Hoje, a gente entende que, para ter uma Infraestrutura eficiente e coerente [da filantropia], precisamos trabalhar nesses outros dois Eixos: Democracia e Justiça Racial.
Um dos aspectos citados no manifesto do Instituto Beja é a missão de oxigenar a filantropia, pois, conforme o mundo muda, a filantropia precisa inovar. O que é possível citar em termos de avanços conquistados pelo Instituto desde sua criação em 2021?
Cristiane Sultani - Temos algumas iniciativas interessantes para compartilhar nesse sentido. Conseguimos, por exemplo, estabelecer uma aliança para atuar de forma estruturada na melhoria da infraestrutura jurídica e tributária da filantropia.
No primeiro momento, era entendido que um melhor ambiente tributário atrairia mais capital social privado. O movimento foi iniciado pelo Beja e imediatamente adotado por outras instituições, para fazer um advocacy colaborativo, trabalhando na promoção das mudanças, a fim de isentar o imposto sobre doação e outras questões, como em relação aos fundos patrimoniais.
Vimos, nessa atuação, uma mudança de paradigma. Hoje, a Aliança existe, foi vencedora na questão do imposto sobre doação e ganhou corpo e confiança de muitas instituições.
Num curto espaço de tempo, essa liderança foi reconhecida e hoje é tudo o que a gente sonha, pois é uma coliderança, na qual várias instituições atuam de fato em parceria, no sentido de confiança e de entendimento coletivo.
Outro exemplo de iniciativa mais arrojada é a parceria global e a criação do Centro para Mudanças Exponenciais [CMe], que é o hub brasileiro de uma rede global de apoio para Orquestradores de Sistemas* . Entendemos que vários governos estavam investindo em novas tecnologias e existiam modelos na Índia, na China e nos Estados Unidos, mas, no Brasil, era preciso mais investimento. Não sabíamos por onde começar, porque não é uma expertise nossa, mas usamos o capital para tomar esse risco a partir de um modelo que já estava sendo utilizado na Índia, um centro que tinha nascido ali e estava buscando parceiros globais. Então, o Beja entra como parceiro global de filantropias grandes – Nilekani Philanthropies (Índia), New Profit (EUA), Skoll Foundation (Global), Waverley Street Foundation (Global) e Yellowwoods Foundation (África do Sul) – a partir do Sul Global, para cofundar o Centre for Exponential Change [C4EC], essa rede global que hoje conta com hubs na África do Sul, Ruanda e Índia, além do Brasil. Outro grande ponto-chave dessa parceria é o estabelecimento do Sul Global como prioridade.
Portanto, para mim, essa parceria é uma grande oxigenação. Na Índia, a filantropia e o investimento social privado tiveram papel importante na construção da infraestrutura de tecnologia para que o governo pudesse criar uma identidade digital e um cadastro único dos seus 1,4 bilhões de habitantes. São histórias como essas que nos inspiram a pensar o que é possível aqui. Então, estamos com o hub do C4EC no Brasil, o CMe (Centro para Mudanças Exponenciais), criado e tomando corpo. Já temos seis parceiros aprovados pela rede global para participar da jornada para mudanças exponenciais, que provocará uma verdadeira mudança de mindsets, a fim de alcançarmos soluções com mais escala, impacto e que resolvam mais rapidamente as questões das desigualdades de maneira mais sustentável.
“Acredito que um dos nossos diferenciais é o fato de que temos conseguido abrir muitos canais internacionais. Fico muito feliz quando ouço de outras filantropias depoimentos como: ‘A gente aprovou esse parceiro, pois vimos que ele estava na carteira de vocês’. Existe, então, um reconhecimento de que estamos fazendo um trabalho diferenciado.”
Outra iniciativa que acredito ser um diferencial é o Filantropando, um movimento que nasceu para reunir os filantropos e as organizações da sociedade civil, a fim de promover a escuta conjunta e explorar caminhos inovadores para o campo. Foi inclusive, a partir da primeira edição do Filantropando, que criamos o movimento de advocacy para a legislação tributária hoje conhecido como Aliança para o Fortalecimento da Sociedade Civil. Vejo, então, que o Filantropando tem o potencial de reunir todos os envolvidos do campo: doadores, parceiros, consultores etc., e refletir sobre o que tem de novo, o que estão fazendo de diferente, como podem contribuir e o que está sendo feito e pode ser melhorado.
A respeito de 2025, o que podemos destacar como os principais marcos e resultados?
Cristiane Sultani - No decorrer do ano, conseguimos desenhar melhor a atuação do Centro para Mudanças Exponenciais. Foi muito bom ouvir, dos três primeiros parceiros que participaram da jornada, que há um efeito multiplicador das ações, não só para a missão daquela instituição, mas sim na forma de pensar e de agir no campo, de como agora conseguem, em um congresso, uma conferência ou em qualquer ambiente coletivo, fazer essas ideias serem discutidas.
Outro ponto bem importante foi a maturidade da relação com o Instituto Toriba na curadoria do Filantropando a partir do imaginário e das possibilidades em conversas que parecem óbvias – mas acabam não acontecendo – e, também, a oportunidade da criação desse espaço de segurança para as conversas serem mantidas. Foi muito interessante poder discutir como podemos transformar o nosso próprio território, o nosso próprio mapa, a nossa própria forma de pensar e de agir.
A chegada de temas, como a nova longevidade, com a criação do Laboratório focado nesse assunto foi outro ponto positivo. A pirâmide do país inverteu e o próprio governo não prestou muita atenção. São tantas políticas públicas que precisam ser criadas ou revisitadas a partir da convivência intergeracional entre crianças, adultos e idosos. Há diversas perguntas ainda a serem respondidas: Que idoso é esse? A partir de qual idade?
Acho que tivemos muitas conquistas esse ano.
Quanto às mudanças de rota? O que é possível citar em termos de ajustes de estratégias? O que foi experimentado e ajustado em 2025 pela organização?
Cristiane Sultani - Tínhamos ainda um reflexo muito pulverizado do nosso portfólio diante da velocidade da mudança da missão do Beja. Então, em 2025, fizemos uma reflexão interna importante sobre o que seriam, efetivamente, os Eixos estratégicos e o que eles representam, pois é, a partir do nosso portfólio, que conseguimos comunicar o que realmente fazemos. Acredito que esse foi um intenso exercício do ano. E, a partir daí, tivemos mudanças de estrutura, de equipe etc. Além disso, tivemos um grande trabalho de escuta do campo sobre qual é o diferencial do Beja para esses vários atores.
A respeito das temáticas do Filantropando, o evento abrigou sete rodas de conversas organizadas em quatro ondas, conectando justiça climática, território, comunicação, imaginação e financiamento transformador. Por que chamaram de Diálogos Improváveis?
Cristiane Sultani - A COP é um evento muito institucional, a partir de um padrão europeu e americano. E não é que seja impossível, mas é improvável a realização de alguns diálogos, como a respeito da religiosidade. Sabemos que, sendo a COP no Brasil, os ribeirinhos e os indígenas, por exemplo, tiveram a oportunidade de estar na Conferência, pelo exercício da democracia, mas essas conversas também não seriam debatidas em recintos maiores, com a reciprocidade que ocorreu no Filantropando. Essa oportunidade de trazer temáticas que não estavam na agenda oficial do encontro atraiu parceiros que, naturalmente, não estariam interessados em ouvir. Foi muito efetivo.
Houve momentos muito marcantes. O Daniel Calarco, presidente do Observatório Internacional da Juventude, por exemplo, lembrou que, antes da Conferência, muitas pessoas falavam que o Brasil não teria infraestrutura para receber uma COP, questionando o porquê de ser em Belém etc. E aí, ele perguntou: “Mas será mesmo que uma cidade que recebe o maior evento religioso do país, que é o Círio de Nazaré, com mais de 2 milhões de pessoas todos os anos, não tem infraestrutura ou será que esse é o pensamento europeu que está esperando que a América do Sul receba como a França?”. Essa é a disparidade daquelas pessoas que não estão disponíveis para estar de acordo com o que o país oferece.
No Filantropando, tivemos a felicidade de promover não só conversas, mas também trazer a cultura local para dentro do barco, contando com a presença de bandas para compartilhar conosco a experiência do território, assim como as comidas produzidas pelas pessoas do território. Muitos estrangeiros participaram também das conversas. O CEO da Black Jaguar Foundation, nosso parceiro, por exemplo, é um holandês, e ele destacou: “Não vi isso acontecer em nenhum outro lugar da COP. Estou impressionado. Não esperava ter essa qualidade de conversa e essa oportunidade de escuta e de conhecimento.” Então, acho que eu traduziria a participação do Beja extraCOP como um golaço de grandeza de enriquecimento e de conhecimento para todos nós participantes.

Para fechar a conversa olhando para o campo da filantropia familiar, que caminhos você apontaria, então, para a nova geração de filantropos que está chegando?
Cristiane Sultani - Existe muita expectativa sobre o que essas novas gerações vão fazer e como elas vão usar o seu capital. Ainda não sabemos, mas estamos trabalhando para inspirá-las. Acho que o movimento do Beja já tende a ser inspiracional. E a gente quer que as pessoas venham experimentar conosco. Fica aqui o convite.
Confira a série especial em vídeo: “A força do vento em 2025 no Instituto Beja”, com Cristiane Sultani:
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